QUINTAL
Morar em casa tem essa vantagem.
Um território especial para exercer a liberdade.
A área externa, grande ou pequena, é sempre um remédio. Um mundo para se expressar, sonhar ou aliviar o tédio.
É pra lá que mandam as crianças, porque dizem que dentro de casa não é lugar de bagunça.
Você pode inventar, dar crédito à imaginação. Brincar de escolinha, bambolê ou patinação.
Interagir com plantas, tocar insetos. Falar com as estrelas, afinal é a parte da casa sem teto.
Ali pode jogar bolar, gritar, riscar o chão de giz. Pode cantar, dançar, enfim, ser feliz.
Lavar o piso, então, que diversão! Ficar descalço, molhar a roupa, furar bolhas de sabão.
Hora boa para testar a coluna. Escorregar perigosamente até cair de bunda.
Os tombos bons de levar na vida. Você pode até chorar, mas no fim tudo vira palhaçaria.
A farra de estar com amigos ou com irmãos.
A segurança da família, que irá te estender a mão.
Esse negócio de varanda gourmet é só pra inglês ou brasileiro bobo ver.
No meu apartamento não existe isso de espaço de gastronomia. Tem pia e churrasqueira como desculpa para permitir a alegria.
Pode ficar à vontade. Ser quem se é de verdade.
Pode sujar o chão, beber, falar palavrão.
Pode fazer confidências, abrir o coração.
Eu cresci, mas não esqueci o valor dessa riqueza. E nem quero.
Meu quintal ainda existe, mas agora é aéreo.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Sabe do que sinto saudade no trânsito da cidade?
Sinto falta de arte de criança. A cadeira de segurança extinguiu brincadeiras que tenho na lembrança.
Para mim e para minhas irmãs, o banco de trás do carro era o mesmo que entrar no palco.
Hora do show. Tempo de ser palhaço.
Olhando a platéia que vinha atrás, a gente dava tchau, sorria, muitas vezes mostrava a língua e se escondia. Sabendo que malcriação resultava em punição, a gente ficava ali abaixadas, com frio na barriga e morrendo de dar risadas.
Era muito divertido provocar um estranho sem culpa e deixar para os nossos pais a responsabilidade de uma desculpa.
Com os carros emparelhados, a plateia surgia do lado. A proximidade aumentava a tensão e engordava a tentação. Caras, caretas, todo tipo de saudação. Também a língua aparecia, mas aqui era mais atrevida. Grudava no vidro, lambia.
Às vezes, a inspiração era brincar de concentração. Ficar parada olhando a pessoa fixamente até que ela não mais nos ignorasse ou piscasse. A vitória era quase certa. Quando observadas, as pessoas ficavam inquietas.
Os carros ficaram mais seguros, mas perderam um espaço de sonho. Ao invés de diversão, ganharam ares de censores da liberdade de expressão.
Agora, parada no trânsito, além dos prédios, observo nos carros o tédio.
Para meu alívio, nem tudo está perdido. Na janela escancarada cabeças felpudas penduradas. Orelhas pra trás e uma expressão de alegria, os cachorros me recordam como, no carro, é bom mostrar a língua.
O ROUBO DO CHEIRO
Estou fazendo uma limpeza no apartamento. Abrindo espaço para mudanças que já aconteceram.
Eis que me deparo com esse flagrante. Não tem desculpas! Não há atenuantes!
Um roubo descarado do meu cheiro num afetuoso colo.
Minha mãe se alimentando do meu perfume e do meu calor.
Não tenho filhos, mas deve ser lindo agradecer por esse momento e estar consciente de que essa obra, que é parte de você, ainda está aqui e presente!
Dei risada pela minha cara de estranheza!
O que está fazendo? Não entendo!
Não deveria eu a estar sugando de você afeto por cada um de seus poros?
Me dei conta, sorridente, que essa foto foi hoje um presente.
A energia que me criou me mostrando meu valor.
Meu magnetismo, meu tempero irresistível, meu gostinho inconfundível.
Minha resistência em receber quando não entendo os porquês. Isso já estou curando no caminho.
E fiquei ainda mais contente ao saber que o paparazzi em questão era o meu pai, porque a gostosura desse registro me revelou a doçura e o encantamento que ele, nesse dia, levava dentro.
O orgulho de ter uma linha mulher a brilhar e uma de suas três flores ser cacheada e morena perpetuando o seu DNA.
Gratidão coração e maturidade por me revelarem a VERDADE! Todo dia reinvidicando um pedaço de mim, inclusive meu aroma de mato, de flor, de bicho, de capim, e me tornando a mágica que sou e me faz feliz!