FIO DESENCAPADO
De repente, minha pele deixou de ser planície. Virou uma semi espinhosa superfície.
Quando pensei que ela ficou doente, ela conta pra mim que está presente.
Eu disse: você ficou louca? Ela me respondeu: cala serena a boca!
Isso não é uma reprimenda. É uma oferenda.
Sente o calor que te toca.
Sente o frio que te provoca.
Sente o suor que te molha.
Sente o beijo que te deixa mole.
Sente o aperto que te encolhe.
Sente o suspiro que te engole.
Sente, por um segundo, tremer a gordura e cada músculo.
Sente, de repente, virar régua e manter a coluna ereta.
Sente o movimento do sangue.
Sente o pulsar da corrente.
Encosta no fio desencapado do calafrio. Sente o prazer da energia e o sabor do arrepio.
CASA DA ÁRVORE
Eu sempre sonhei em ter uma casa na árvore.
Uma casa da árvore só minha. De madeira, cipó, folhas de palmeiras, samambaias, trepadeiras.
Pequena, mas luxuosa. Sim!! O luxo do perfume da mata. O luxo da música mais linda do mundo... os sons da vida na floresta. O luxo do calor e da segurança da madeira. O luxo da vista verde, verdinha, verdíssima.
Teria chocolate quente e uma lamparina de luz amarela... fraquinha, mas forte o suficiente para não me deixar temer a escuridão e, claro, me permitir ler e escrever.
Ali, novos sonhos nasceriam. Nas palavras lidas e escritas a imaginação viajaria solta, me pegaria pelas mãos e me levaria para viver novas aventuras.
De vez em quando eu pararia de ler para olhar ao redor e ter certeza de que tudo aquilo era real.
E também ia brincar de fazer imagens de sombras. Uma brincadeira que fazia quando era criança e que me ensinou que sombras não são apenas fantasmas assustadores... podem ser gato, coelho, montanhas, beijo.
E agradecer, agradecer profundo por ser eu... me apertar entre as cobertas, afundar a cabeça no travesseiro macio, respirar fundo, apurar os ouvidos, fechar os olhos e me sentir, finalmente, parte de algo maior.
Na hora de dormir, cairia uma chuva de ninar. Eu não teria medo. Os braços da minha mãe árvore estariam ali para me cobrir e zelar pelo meu sono.
Eu deixaria minha pequena salamandra de ferro acesa. Eu gosto de dormir ouvindo as histórias que as madeiras contam enquanto queimam. E, também faria isso para sinalizar aos espíritos da floresta que, ali, toda luz era bem vinda.
E na minha casa da árvore não entraria qualquer um, apenas a título de curiosidade.
Minha casa teria escada de corda retrátil. Para subir ou descer haveria de se lembrar ser um pouco macaco - brincar, balançar, pular. Teria que ter vida, energia.
Nessa casa só entraria gente comprometida com a própria verdade. Quem tentasse subir munido de representação, na terra cairia mudo e se tornaria adubo.
De manhã, acordaria com um toque morno de um feixe de sol e a sinfônica dos pássaros despertando meus ouvidos. E não teria a menor tentação em pensar no modo soneca. Eu teria vontade de acordar.
Sairia da cama refeita, inteira, firme como a madeira. Abriria os olhos. Colocaria a cabeça pra fora da pequena janela. Encheria o pulmão de ar puro. E soltaria um sorriso íntimo.
Me sentindo grande, enorme, gigante, pelo privilégio de simplesmente existir. E me amar por isso.
Eu sempre sonhei em ter uma casa na árvore. A diferença é que hoje sei que já a construí dentro de mim.
SOBREMESA
Tem gente que tem a destreza de transformar o mundo em sobremesa.
Tem gente que é pudim. Sempre oferece um sim. Uma leve pressão e qualquer resistência vem ao chão. Esse tipo é uma delícia, mas precisa de polícia. Por serem maleáveis, são facilmente abusáveis.
Tem gente que é gelatina. Sei lá o porquê nasceu colorida. Só de estar presente imprime no ar um clima alegre. Mesmo falando coisa séria parece estar fazendo comédia.
Tem gente que é bolo de fubá. Basta um 'bom dia' e, pronto, tem o resto da vida para conversar. Aceita um cafezinho? Fica mais um pouquinho.
Tem gente que é pettit gateau. Se veste com armadura dura fingindo sobriedade. E, depois de uma boa conversa, revela uma deliciosa cremosidade. Vem sempre acompanhado de sorvete, o que o torna ainda mais intrigante. Mas, cuidado no brincar. Do mesmo modo que derrete, pode congelar.
Tem gente que é sonho. Tudo inspira conforto. É macia até na fala. Na vida passada deve ter sido almofada.
Tem gente que exige mais atenção. Para colher o mel é importante propósito, profundidade, precisão. Uma vacilada e, ao invés do doce, chega o sabor da picada do ferrão.
Pode ser inocência da minha parte, mas acho que todo mundo tem um pedaço de chocolate. Até do tipo rapadura, com uma mordida ingênua ou com a paciência da língua, se consegue extrair doçura.